17/02/2012

QUILOMBOLAS EM SERGIPE

Quilombolas na foz do São Francisco
"Eu acredito que o mundo será melhor,
Quando o menor que padece acreditar no menor"
(Poeta Jorge Pereira Lima, Porto da Folha).


Gostaria de compartilhar um pouco da nossa luta junto com os negros do São Francisco, em Sergipe. No início dos anos 70 os frades franciscanos residentes em Porto da Folha - Freis Angelino, Juvenal, Enoque e Roberto Eufrásio - dividiam-se para visitar as povoações da imensa paróquia, que abrangia também os municípios de Poço Redondo e Canindé, no alto sertão sergipano. Numa dessas visitas, Frei Roberto Eufrásio registrou a realidade dos beiradeiros moradores na fazenda Araticum, próxima à terra indígena e, pasmem, mostra como a escravidão vigora(va) ainda no século XX: 

“Fomos à fazenda Araticum, situada à margem do Baixo São Francisco. Durante o dia, eu, frei Enoque e o missionário Júlio Justino fomos visitar a rua dos moradores. Chegamos até a lagoa onde os trabalhadores plantavam arroz. No trabalho eles contaram de como eram tratados, de suas filhas defloradas pelos filhos do fazendeiro [...], dos açoites no trabalho, morador lançado ao rio com uma pedra no pescoço, jovem trabalhador arrastado na cauda de um cavalo pelo [...], filho do proprietário.” (DE OLIVEIRA, 2007, p. 27-28).

Nessas visitas missionárias na beira do velho Chico encontraram os índios Xokó residentes na Fazenda Caiçara e, mais acima, os negros residentes no Povoado Mocambo. Lá do Mocambo nós inclusive ouvimos depois a história do negro Antonio do Alto, que por ter tido um caso amoroso com uma branca, com quem gerou uma criança, foi obrigado a cavar a própria cova e nela foi enterrado vivo. Pois bem, os missionários dos anos 70 se dedicaram ao resgate histórico e, a partir da fé, procuraram sensibilizar os dois grupos para conquistar as terras onde moravam, começando pela retomada da Ilha de S. Pedro. Os negros do Mocambo não toparam e se posicionaram contra. Os índios ocuparam a Ilha de S. Pedro no dia 09 de setembro de 1978. Posteriormente foram conquistando o restante de seu território de uma légua em quadro. 

Somente em 1992, é que algumas famílias negras do Mocambo, que também eram misturadas com indígenas, estimulados pela paróquia e pelos índios, começaram a se organizar para a conquista da terra. Os dois povoados - Ranchinho (centro) e Mocambo (beira do rio) - estavam encurralados entre fazendas ao lado sul e oeste, com os índios Xokó a leste, e o rio São Francisco ao norte. Era o rio a única fonte de alimento de livre acesso. A pobreza era visível. Foi a partir daquela convivência que fomos tomando consciência histórica dos negros e da necessidade real de organização para buscar soluções justas pra resolver a situação de pobreza e miséria vigentes nas duas comunidades. Lutar pelo direito às lagoas naturais? Pela reforma agrária? A reflexão contou com a contribuição efetiva da CPT (posteriormente do Centro Dom José Brandão de Castro). 

Um pequeno grupo, sob protesto da maioria, assumiu a organização da luta. Ao mesmo tempo em que eles foram ocupando a fazenda de Seixas Dória - que apoiou o movimento - e fazenda Floresta, os advogados do Centro Dom José entravam com ação no MPF, reivindicando a aplicação do Artigo 68 da Constituição Federal que diz: “Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos”.   

Assumida a questão quilombola e as ocupações, vieram os apoios dos índios Xokó, das Paróquias de Porto da Folha e Poço Redondo, dos sindicatos rurais e de várias lideranças do sertão. Todos contribuíram muito no processo de libertação da primeira comunidade quilombola. Quando os que acreditaram se organizaram e o sonho começou a virar realidade, “o cancão piou”, como diz o sertanejo. A luta pegou e a libertação chegou. Aqui aconteceu a efetivação do primeiro quilombo de Sergipe. A propagação foi irradiada como a luz da manhã que se levanta e convida a todos a ir à luta para viver. 

Por volta de 1993, o padre Antonio Rodrigues, pároco do município de Amparo do São Francisco, me convidou pra celebrar no dia 4 de outubro, festa do Santo Cruzeiro (e não de S. Francisco) em Lagoa do Pontal, na parte da manhã. Após a missa, fomos almoçar na casa de dona Maria da Glória, conhecida como “dona Maria Pequena”. Após o almoço, conversa-vai- conversa-vem, ela me contou que era de Porto da Folha. Olhei para ela, com uns 75 a 80 anos de idade, sorri e lhe disse que em Porto da Folha só havia uma rua dos negros (atualmente a Rua do Correio). Ela retrucou dizendo que era do povoado Ilha do Ouro. Aí vibrei de alegria, porque naqueles dias eu tinha feito uma pesquisa nos livros de batismo onde constavam os nomes dos escravos livres. Ela me disse o nome da mãe: Carlota, que era uma negra nascida sob a proteção da Lei do Ventre Livre! O batistério foi usado como documento no processo quilombola de Lagoa dos Campinhos, a segunda comunidade quilombola de Sergipe, onde se localiza o Pontal.

Em 1997, estimulado por Manuel Dionísio da Cruz, militante sindical e ecologista de Poço Redondo, fomos conhecer mais um pouco a história do povo da Serra da Guia através dos mais velhos, principalmente de dona Zefa da Guia. Em conversa descobrimos o parentesco deles com os negros do Mocambo. Que alegria! Conseguimos realizar um encontro entre as duas comunidades no Mocambo. E assim a consciência de libertação afrodescendente, quilombola e negra, foi crescendo e os interessados foram se organizando. É importante frisar que todas as comunidades conhecidas, tanto ao longo do São Francisco, como as outras, revelam um grau elevado de pobreza e miséria, rodeadas de fazendas de gado, lagoas de arroz e canaviais. 

Inicialmente, o processo de luta por afirmação provoca uma divisão na comunidade, visto que ao longo da vida foram obrigados a assumir culturalmente a própria rejeição enquanto povo, cultura e religião: reagem ao serem chamados de negros (racismo às avessas?!). Os políticos e proprietários espalham boatos como “quilombo é coisa do atraso”, “é voltar para o tronco”. Alguns negros se prestam a dar entrevistas declarando que não são quilombolas e não querem terras. Acontecem ameaças de morte, presença de pistoleiros ameaçando os moradores, espancamentos (Mocambo, Caraíbas, Resina, Brejão e Brejo Grande), corte de arame das cercas (Resina), morte de animais da comunidade (Brejo Grande), gado nas roças (Brejão e Resina), etc. 

Tem sido importante o apoio do MPF (Ministério Público Federal) e a ação do INCRA. No entanto, apesar do Estado ter colaborado na liberação de antropólogos para 15 comunidades, tem sido lento na tomadas de decisões para evitar atos de violência nas comunidades, principalmente nas praieiras que vão de encontro aos interesses de grandes empresas de resort. Atualmente um bom grupo de comunidades, através do seu Comitê Quilombola, tem se organizado nas contínuas reivindicações, tanto em defesa dos direitos humanos como das aquisições de políticas públicas. Vamos em frente, com muito Axé. Graça e Paz no Deus da Vida!

Pe. Isaías Carlos Nascimento Filho
Mestrando em Ciências da Religião na UNICAP,
Coordenador da Cáritas Diocesana de Propriá.

Um comentário:

  1. Quando saíra um livro sobre esses encontros, desencontros e encontros. A memória desse povo que luta para ter uma vida digna. Aguardamos...

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