8 de nov de 2012

LUIZ GONZAGA E A RELIGIÃO

Dom Helder e Luiz Gonzaga

Asa branca em voo rasante,
Olhar de águia a ver distante,
Sente a dor que da terra brota,
De um chão inóspito em calor ardente.
Cercas longas a dividir a terra, 
Causa infame de prolongada seca,
Não fosse a asa branca em sinal plangente,
Luiz não teria ainda infante, 
Esgrimido um som feito em fole e diapasão, 
Batida de pé, nem baião.
Não,
Não teria cantado um amor ardente,
Nem feito luz das estrelas candentes.
Ah,
Não há porque mentir nem esconder!
A asa branca que levantara voo,
Do sertão e da solidão,
Riscou profunda a dor,
De que foi capaz seu coração.
(Drance Elias)
...
O programa "O Reino Cantado de Luiz Gonzaga", da Globo Nordeste e Luni produções, homenageia o legado do Rei do Baião, no ano do centenário de seu nascimento. O especial é transmitido aos sábados pelo meio dia e começou no último 13 de outubro, desvendando os encantos da sanfona (assista o episódio aqui), instrumento tocado com maestria e sucesso pelo Gonzagão, fazendo com que seus seguidores tivessem vontade de perpetuar as tradições da alma nordestina.

O episódio exibido no sábado 20 (veja reportagem e assista aos blocos do programa aqui) falou sobre o forró, tipo de música nascido no Nordeste, cuja instrumentação básica tem sanfona, zabumba e triângulo. Forró é um ritmo com dança alegre e sensual, hoje espalhado pelo mundo, é um pedaço do Sertão que renasceu na cidade e mata a nossa saudade de Gonzagão, que foi o seu mestre maior. O episódio que foi ao ar no dia 27 tratou da criação do baião por Luiz Gonzaga (assista aos blocos do programa aqui), que se consagrou assim como sua "majestade" e o transformou no ritmo mais tocado no Brasil por dez anos.

Luiz Gonzaga é, de fato, uma das mais emblemáticas figuras da música popular brasileira. Junto com os poetas das suas canções, como Zé Dantas, Patativa do Assaré e Humberto Teixeira, ele divulgou o Sertão como a grande síntese cultural do Nordeste, que está hoje no imaginário do povo brasileiro, como um baú de valores civilizatórios e de narrativas profundas. Fez com a sua arte de cantor, o que fizeram pintores como Cândido Portinari, poetas como João Cabral de Melo Neto, romancistas como Graciliano Ramos, dramaturgos como Ariano Suassuna.

Gonzaga, cantando acompanhado de sua sanfona, levou a alegria das festas juninas, da religiosidade popular e dos forrós pé-de-serra, bem como as tristezas e as injustiças de sua árida terra, o Sertão nordestino, para o resto do país, numa época em que a maioria das pessoas desconhecia o forró, o baião, o xote e o xaxado, e em que os nordestinos ainda não tinham voz pra contar suas histórias e afirmar sua dignidade. Gonzagão personificou as ambiguidades políticas do sertanejo, mas cantou como ninguém a cultura de devoção aos santos do nosso povo. Nos últimos dezoito anos de vida, contudo, entrou na maçonaria - o que enseja e motiva pesquisas sobre a religiosidade em trânsito no Nordeste do Brasil. Para onde está indo a fé da gente?!

No episódio do “Reino Cantado” que passou no 3 de novembro (veja aqui o programa) mostra-se, justamente, Luiz Gonzaga retratando – ou “decantando”, como ele dizia – a fé dos nordestinos. A música de Luiz Gonzaga documentou romarias, novenas, procissões, promessas... Uma trajetória de fé e orações direcionada para ícones como o Padre Cícero e Frei Damião. "Na minha história pessoal Luiz Gonzaga tem uma importância fundamental. Desde os meus oito anos que eu canto Luiz Gonzaga e me encanto com ele", conta o padre Reginaldo Veloso, que procura compor um repertório para as celebrações litúrgicas da Igreja que tenha raiz nas músicas do povo, como o baião, o xote, o xaxado e as emboladas. "Eu sou muito religiosa. Não aceito que se diga que a fé é algo infantil, ingênua. Ao contrário", defende também a cantora Elba Ramalho.

O professor Gilbraz Aragão, do Mestrado em Ciências da Religião da UNICAP, lembra no programa (veja aqui) que o nosso Sertão teve uma evangelização católica com "muita reza e pouca missa, muito santo e pouco padre", uma tradição mais oral do que escrita. "Por exemplo, a bíblia não era lida na nossa língua. As pessoas tinham que se valer dos seus próprios meios para transmitir histórias através de contos, loas e benditos. Então não era uma Igreja de padres com livros, mas de lideranças carismáticas que usavam da sua intuição religiosa para distribuir bênçãos, fazer rezas e contar histórias edificantes", explicou. Os contos e cantos, como os de Gonzaga, tiveram assim um papel importante na socialização religiosa. Além do professor Gilbraz, o Mestrado também aparece no programa sobre Luiz Gonzaga e a “fé popular” pela bela interpretação que Silvério Pessoa, artista de talento e mestrando da gente, fez da canção “Baião da Penha” (veja aqui).

No dia 17 de novembro, a série voltou a abordar a religiosidade, com as festas juninas da cultura nordestina (veja aqui e aqui). Os episódios seguintes do programa mostraram como a obra de Luiz Gonzaga retratou a migração do sertanejo pra cidade (veja aqui), as paisagens poéticas e trágicas do Sertão (veja aqui), a valentia em uma terra de cangaceiros (veja aqui), os amores sertanejos (veja aqui), a mulher (veja aqui) e o homem nordestino (veja aqui), a volta e a saudade do Sertão... Vale a pena ver, se emocionar... e pensar!

3 comentários:

  1. Gonzaga e a fé popular (primeira parte):
    http://globotv.globo.com/rede-globo/o-reino-cantado-de-luiz-gonzaga/t/veja-tambem/v/1o-bloco-musica-de-luiz-gonzaga-documentou-trajetoria-de-fe-dos-nordestinos/2223390/

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  2. Gonzaga e a fé popular (segunda parte):
    http://globotv.globo.com/rede-globo/o-reino-cantado-de-luiz-gonzaga/t/veja-tambem/v/2o-bloco-nordestinos-falam-de-sua-relacao-com-a-religiosidade/2223391/

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  3. Olá professor Drance, gostei muito da sua poesia sobre Luiz Gonzaga. E estou com saudade da UNICAP: cuide logo em criar o doutorado, que eu quero voltar. Abraços Professora Augusta.

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